mm12, corpos abertos

aceitaram-na. era sorridente e prestativa para com todos. demonstrava sempre o quanto era feliz. muito feliz. felicíssima.

mm11, o painel didático

escreveu numa pequena agenda de bolso:

"painel didático:

a cura,

a liberdade,

os motivos,

os mecanismos,

os mecanismos e sua estética,

os módulos voláteis,

o distinto,

o milagre,

a gestão do milagre."

fechou a agenda com cuidado. colocou no bolso rapidamente e olhou para os lados.
um suspiro.
estava tudo bem, podia seguir adiante.

mm10, sobre cargas e pacotes

sempre foi um sujeito transbordante. transbordar era a sua inércia.

quando pequeno, tomava banhos em banheiras e piscinas infláveis. gostava de retorcer-se, debater-se, mergulhar espalhafatosamente. sentia especial prazer em ver todo aquele escândalo de água.

hoje, se retorce em suas entranhas e, espalhafatosamente, busca acalmá-las.

mm9, death metal yoga

acordava todos os dias às seis da manhã. lavava-se e ia para seu dojô. ligava o som: cannibal corpse, six feet under, job for a cowboy, etc. ficava uns quarenta minutos exercitando a elasticidade, a repiração, rompendo bloqueios, etc. depois ia para a porra da firma dar um trampo miserável.

engenharia hedônica para a era de kali: death metal yoga.

mm8, os tempos inomináveis

eram tempos inomináveis. daquela época pouco se sabe. ou melhor, quase nada. algumas revistas com fotos de pessoas felizes, livros explicando o que fazer para ser feliz (provavelmente, para ser feliz como as pessoas da revista, não se sabe) e uma página de caderno manuscrita, provavelmente sobrevivente de algum incêndio.

o bilhete dizia o seguinte:
"tímida eu? não, não. é que eu sei do que vocês são capazes, entoxicados de normalidade que estão. perto de vocês, fico aqui quieta, cautelosa sendo eu mesmo. o menos que gente como vocês me notar, melhor."

trata-se de uma questão nebulosa. alguns teóricos suspeitam tratar-se de uma rudimentar fórmula mágica de invisibilidade, operacional naqueles estranhos tempos.

mm7, minuto moral

O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE: essa vidinha aí só pode dar câncer.

mm5, a burocrata e o eremita

na realidade ele já vinha recebendo os sinais. não que ele soubesse interpretá-los. e este era o motivo de sua agonia: sabia que "algo" iria acontecer, o universo estava o avisando. mas ele não sabia como, quando, nem o porque. deveria viver sabendo que "algo" iria acontecer cedo ou tarde. se seria um fato isolado, uma reação em cadeia, a abertura de um portal dimensional, um vórtex com novas realidades, um ataque sombrio, manifestações kármicas... dúvidas e mais dúvidas.

os livros sagrados não eram suficientes. muito menos os manuscritos dos magos. aquilo era entre o universo e ele. ele estava sozinho com os deuses.

mm4, jihad marketing

ainda bem que ele não está me vendo. está de costas pra mim. usa uma camiseta de estampa camuflada escrito "exército de deus". está sentado e atento, provavelmente vigiando a criação divina, preocupado com a eficaz operatividade teleológica de tudo.

mm3, momento esporte espetacular

a peteca cortava o ar. um céu muito azul. sol alto. praia lotada.

ele é um alto executivo de recursos humanos. seu trabalho é racionalizar a produção a partir do material humano. frio, cético, cumpre sempre as metas da diretoria.

mas hoje não. está de sunga, viseira e protetor solar fator 30, jogando peteca na praia com sua esposa.

micromitologias 2, possessed

era guitarrista de uma banda de black metal. daquelas que faziam rituais no palco.

numa noite sombria foi possuído pelo ritmo raggatanga. hoje frequenta os clubes de londres e sacode-se ao ritmo do tech-house inglês.

micromitologias 1, intelectualmente viável

acadêmico que era, precisava sempre de uma contextualização teórico-metodológica para tecer seus raciocínios.

viveu assim por muitos anos.um belo dia largou disso tudo ao mijar nas calças. na realidade estava muito apurado e não conseguiu consultar nenhum cânone ao ver seu zíper emperrado.